domingo, 3 de abril de 2011

No fundo da sala


Quando o dia começa tem início o meu tormento: enfrentar as pessoas. Em casa, tudo bem, já estão acostumados com meu silencio e identificam, inapropriadamente, de mau humor.

Sigo. O ônibus infecto cospe as pessoas e tenho que encarar meus primeiros opositores, aos quais não pronuncio bom dia e passarei por uma pessoa mal educada ou aborrecida. Mas o que me estrangula por dentro é muito mais do que essas maléficas qualificações.

O segundo e mais difícil momento do dia é estar em meu ambiente de trabalho. Inserir-me. Ah, quão difícil suportar essa dificuldade de emitir opiniões, participar das piadas na hora do café, contrapor a idéia do chefe. Silêncio. Volto para o fundo da sala, muda. Permaneço reclusa em mim, enroscada no mais profundo desassossego.

Prossigo calada. Arrisco alguns olhares, ensaio algumas sílabas. Engasgo e emudeço novamente. Sinto-me inapropriada a tudo, ao espaço familiar, ao recinto do trabalho ou a qualquer ambiente. O ar me sufoca e os olhares e sorrisos das pessoas me apavoram. Fujo. Sempre para o fundo da sala.

À noite, reclusa em meu segredo, amarguro a dor de mais um dia. Queria ter falado, gostaria de contar um fato engraçado, adoraria apresentar os resultados do meu trabalho, mas não consegui.

Submergi e me afoguei. Até quando? Como resolver? Como revelar? Vergonha? Medo? Fobia? Era tudo e não era nada, mas é o meu inferno descrito numa frase: sou tímida.

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